Lembro-me como se fosse hoje do meu primeiro diário. Não tinha folhas cor-de-rosa, verde e azul, não eram perfumadas, nem tinha um pequeno cadeado que facilmente era arrombado. Era um caderno A5 de capa dura, cujo fundo era cor-de-rosa salpicado por dezenas de flores coloridas. Eu tinha 11 anos e foi um presente.
Comecei a escrever nele, descrevia todo o meu dia-a-dia, "pois então não é para isso que serve um diário", pensava eu. Escrevia sobre a escola, os colegas, pais e até sobre o professor de Educação Física que eu considerava "um princípe".
Um dia, cheguei a casa e levei um estalo. A minha mãe tinha aberto o meu diário e havia decidido lê-lo. Castigou-me por uma coisa que eu fiz e havia descrito no diário.
Afinal, o meu querido diário já não era assim tão querido, pois os pensamentos, sentimentos e segredos de uma menina de 11 anos estavam ali expostos, a nu, sem autorização.
A partir daí, quebrou-se a relação de confiança com o diário, ele nunca mais seria seguro.
Com 14 anos, decidi reconquistar o diário, todas as minhas amigas tinham um e também eu tinha o desejo de escrever sobre as minhas descobertas e aventuras, tão características do início da adolescência. Foi uma tentativa em vão, escrevia muitas vezes às escondidas, para de seguida guardá-lo num esconderijo e vivia com medo que alguém voltasse a violá-lo. Acabava invariavelmente por destrui-lo, mesmo antes de chegar ao fim. Rasgava as suas páginas e a paranóia era de tal ordem que, muitas vezes, queimava as páginas rasgadas em pedacinhos.
Apesar de tudo, confesso que, por vezes, arrependia-me do que escrevia. Provavelmente por ter sido sempre uma pessoa com as emoções à flor da pele, quando alguém me magoava, eu escrevia sobre toda a mágoa que sentia mas, quando mais tarde fazia as pazes, não aguentava ler o que havia escrito. Era como se, quando me magoavam, essa pessoa se tornasse totalmente má e mais tarde, ao fazer as pazes, voltasse a ser totalmente boa. Ambas as facetas não podiam coexistir.* Os especialistas diriam que este traço da minha personalidade faz de mim uma borderline?! Mas na realidade, eu sabia que não era assim, sabia que as pessoas eram como moedas com duas faces, por vezes boas e por vezes menos boas, vulgo más. Na inocência de uma criança, a vida seria mais simples se as pessoas pudessem ser distinguidas em apenas duas categorias...
Desisti dos diários, mas a verdade é que a necessidade de escrever continuou a perseguir-me, como se eu pudesse encontrar nela uma espécie de catarse.
A necessidade de escrever sobre tudo...
E sobre nada...